Em Ponta Grossa, o número de denúncias de violações contra pessoas LGBTQIAPN+ mais do que dobrou entre 2024 e 2025. Foram quatro denúncias, que somaram 26 violações, em 2024. Em 2025, até o último balanço disponível, de 24 de setembro, foram nove denúncias e 106 violações. Os registros, no entanto, estão longe de representar necessariamente o tamanho da violência enfrentada por essa população.
Uma denúncia pode reunir mais de uma violação. O termo é utilizado para identificar fatos que atentem contra os direitos humanos, o que explica a diferença entre a quantidade de denúncias e o número de violações registradas. Ainda assim, os números precisam ser interpretados com cautela: uma quantidade pequena de registros não significa, necessariamente, que existam poucos casos de violência, preconceito ou discriminação.
A subnotificação pode estar relacionada, entre outros fatores, ao medo de pessoas LGBTQIAPN+ denunciarem as violências sofridas e às dificuldades do poder público em identificar, registrar e acompanhar esses casos. Para Thais Boamorte, advogada e coordenadora estadual da Aliança Nacional LGBTI+ do Paraná, organização sem fins lucrativos que atua na promoção e defesa dos direitos humanos e da cidadania da comunidade LGBTI+, os dados disponíveis precisam ser analisados considerando essas limitações.
O apagamento de dados relacionados à comunidade LGBTQIAPN+
O problema começa antes mesmo dos registros de violência. Ainda não existe no Brasil uma estimativa que consiga dimensionar toda a população LGBTQIAPN+. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 apontam que cerca de 2,9 milhões de brasileiros se declaravam lésbicas, gays ou bissexuais. O levantamento, portanto, contemplava apenas parte das identidades reunidas atualmente na sigla.
Segundo a organização sem fins lucrativos Base de Dados, existem dificuldades metodológicas para produzir esse tipo de levantamento, tanto pelo medo de discriminação no momento da autodeclaração quanto pela própria definição das diferentes categorias que compõem a população LGBTQIAPN+. Dessa forma, existe a possibilidade de que o número de pessoas seja superior ao identificado pelas pesquisas disponíveis.
No Paraná, os registros da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos ajudam a mostrar parte desse cenário. O estado aparece com 348 denúncias, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Goiás. Em 2024, foram 381 denúncias, o que colocou o Paraná na quinta posição entre os estados, à frente de Goiás. Nos dois anos analisados, outubro foi o mês com a maior quantidade de denúncias.
A dificuldade de dimensionar a violência também aparece nos casos mais extremos. Levantamento do Observatório de Mortes Violentas de LGBT+, do Grupo Gay da Bahia (GGB), registrou 291 mortes violentas de pessoas LGBT+ no Brasil em 2024, 34 casos a mais do que em 2023. O número representa, em média, uma morte violenta a cada 30 horas.
Do total contabilizado, 273 casos foram classificados como homicídios e 18 como suicídios. Outros 32 permaneciam em investigação e foram classificados pelo levantamento como casos “no limbo”, à espera de mais informações que permitissem confirmar a inclusão. Caso todos fossem validados, o total chegaria a 323 mortes violentas.
O Grupo Gay da Bahia realiza esse levantamento desde 1980. A pesquisa é construída a partir de informações publicadas pela mídia, buscas na internet e correspondências encaminhadas à organização. O trabalho é realizado por voluntários e sem apoio financeiro do governo.
A própria organização reconhece, por isso, que os números representam apenas uma parcela dos casos existentes. Entre as principais dificuldades está justamente a ausência de estatísticas oficiais específicas sobre crimes de ódio contra a população LGBT+. Para o GGB, a falta de dados produzidos pelo poder público contribui para a subnotificação e dificulta o dimensionamento da violência.
A tentativa de estruturar políticas públicas específicas para essa população não é recente. Há mais de 20 anos, o governo federal instituiu o programa Brasil sem Homofobia, elaborado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. O programa reuniu recomendações para diferentes setores do governo com o objetivo de combater a discriminação e ampliar o acesso da população LGBTQIAPN+ aos serviços públicos.
Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a enquadrar a homofobia e a transfobia nos tipos penais previstos na legislação sobre racismo, diante da ausência de uma lei específica que criminalizasse essas condutas.
Uma cartilha elaborada pela Defensoria Pública do Estado do Paraná apresenta situações que podem configurar LGBTfobia. Entre os exemplos estão afirmar que pessoas LGBTI+ são propagadoras de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), negar atendimento por causa da orientação sexual ou identidade de gênero e assediar alguém em razão dessas características.
Essas situações podem ser denunciadas por meio de Boletim de Ocorrência em delegacias de polícia ou, quando houver esse tipo de estrutura no município, em delegacias especializadas em crimes raciais e de intolerância. Também é possível procurar a Defensoria Pública do Estado do Paraná e outros órgãos de proteção aos direitos humanos.
Entre os 399 municípios paranaenses, 29 possuem um telefone local destinado a denúncias. Ponta Grossa está entre eles. O atendimento pode ser feito pelo número (42) 3222-8063.
Parada LGBTQIAPN+ chega à oitava edição nos Campos Gerais
Ao mesmo tempo em que os dados mostram dificuldades para dimensionar a violência, movimentos organizados da comunidade LGBTQIAPN+ ocupam os espaços públicos também como forma de resistência e celebração. Em Ponta Grossa, a Parada LGBTQIAPN+ dos Campos Gerais chega à oitava edição, com realização na Concha Acústica, no centro da cidade.
Ao longo dos anos, a Parada passou por diferentes locais e também acompanhou uma mudança geracional entre participantes e organizadores. A construção do evento envolve inscrições para integrar a organização, além da participação de diferentes pessoas e do apoio de instituições públicas e privadas.
A estrutura necessária para realizar a Parada também exige recursos. Por isso, além do trabalho dos organizadores, o evento depende de apoios que ajudem a viabilizar a estrutura necessária para a programação.
A discussão geracional ganhou espaço também em outras mobilizações do movimento LGBTQIAPN+. A Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo adotou como tema “Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro”, debate que também se aproxima das discussões sobre envelhecimento presentes no tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”.
Depois de oito edições, a Parada dos Campos Gerais também carrega parte dessa memória. A permanência do evento permite observar transformações na organização, nos espaços ocupados e nas próprias gerações envolvidas na mobilização.
Mas a dificuldade encontrada nos dados permanece. Quando o assunto é a população LGBTQIAPN+, ainda faltam informações capazes de estimar seu tamanho, dimensionar as violências sofridas e permitir comparações consistentes ao longo do tempo. Os registros existentes ajudam a contar parte dessa história, mas não conseguem representá-la por completo.
É justamente nesse espaço entre aquilo que os números mostram e aquilo que permanece invisível que a cobrança por dados públicos também se torna necessária. Sem estimativas, séries históricas e registros específicos, parte das violações continua fora das estatísticas e, consequentemente, mais difícil de ser compreendida e enfrentada.
Ouça o episódio completo abaixo:

