O Carnaval de Ponta Grossa chega a 2026 tentando retomar o protagonismo de décadas anteriores. Depois de anos marcados por redução de recursos e queda no número de integrantes das escolas de samba, três agremiações participam do desfile deste ano: Unidos da Furiosa, Ases da Vila e Império do Samba. Sem repasse direto da Prefeitura para a realização dos desfiles, a organização depende de emendas parlamentares, leis de incentivo, editais culturais e recursos levantados pelas próprias escolas.
Para Antonio Gomes, fundador e presidente da Liga Carnavalesca de Ponta Grossa, o movimento de recuperação começou em 2022, mas ainda está distante do patamar alcançado pelo Carnaval local nas décadas de 1990 e 2000. A estimativa é de que sejam necessários pelo menos mais dois anos, além de maior disponibilidade de recursos, para reconstruir parte daquela estrutura.
Neste ano, os 130 mil reais destinados por meio de emendas impositivas de vereadores ajudam a financiar a festa. A Liga também busca recursos por projetos inscritos em mecanismos de incentivo, como a Lei Rouanet e o Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura (Profice). Atualmente, a distribuição dos recursos prevê 35% para cachês artísticos, 30% para estrutura e palco, 20% para segurança e 15% para comunicação.
O dinheiro disponível, porém, ainda é considerado insuficiente para as necessidades das agremiações. Para 2026, cada escola recebeu R$ 30 mil. O valor precisa ajudar a cobrir gastos com fantasias, bateria e outras despesas envolvidas na preparação para o desfile.
Parte desse custo também é assumida pelas próprias comunidades. As escolas promovem eventos para arrecadar dinheiro e, em alguns casos, integrantes retiram recursos do próprio bolso para viabilizar a participação. O problema financeiro, portanto, não se limita aos dias de desfile: interfere na capacidade das escolas de manter atividades, mobilizar integrantes e preparar o Carnaval ao longo do ano.

A queda na participação da comunidade
Um dos momentos apontados como decisivos para o enfraquecimento das escolas de samba ocorreu em 2016, quando houve corte de recursos destinados ao Carnaval. O impacto não atingiu somente o orçamento. Segundo Antonio, também houve perda de ânimo entre as pessoas que faziam parte das agremiações.
Antes, cada escola chegava a desfilar com aproximadamente 300 pessoas. Atualmente, esse número gira em torno de 120 integrantes por agremiação. A redução ajuda a dimensionar o desafio enfrentado por quem tenta reconstruir o Carnaval local.
Ainda assim, a preparação para os desfiles movimenta um contingente maior do que aquele que entra na avenida. A estimativa é de que mais de 400 pessoas trabalhem direta ou indiretamente na realização do evento em 2026. O cálculo considera integrantes das escolas, organização, costureiras, profissionais envolvidos na cobertura, vendedores ambulantes e outros trabalhadores ligados à festa.
Essa movimentação também está no centro de uma das propostas da Liga Carnavalesca: fazer com que uma parcela maior dos recursos investidos pelas escolas permaneça em Ponta Grossa. A entidade busca aproximação com o comércio local para conseguir preços mais atrativos na compra de materiais e reduzir a necessidade de adquirir produtos em outros centros comerciais, como São Paulo.
A intenção é fortalecer um ecossistema econômico em torno do Carnaval. Quanto maior a capacidade de encontrar fornecedores, serviços e mão de obra na própria cidade, maior também pode ser a circulação local do dinheiro utilizado na preparação dos desfiles.
Dinheiro não é o único recurso que falta
Além dos recursos financeiros, a Liga reivindica há mais de uma década um espaço próprio para ensaios das escolas de samba que também possa funcionar como sede. As tratativas com a Prefeitura se prolongam há mais de dez anos, segundo Antonio.
A disponibilidade de um espaço permanente permitiria às escolas manter atividades para além do período imediatamente anterior ao Carnaval. Hoje, a necessidade de reconstrução envolve tanto a estrutura física quanto a formação e manutenção das comunidades ligadas às agremiações.
Parte desse trabalho ocorre por meio das contrapartidas previstas em projetos culturais. A Liga e as escolas participam de editais e mecanismos de incentivo e, em troca, desenvolvem ações destinadas à comunidade e a estudantes dos ensinos fundamental e médio. Entre elas estão oficinas de costura e percussão.
Para Antonio, essas atividades também funcionam como uma forma de aproximar novas pessoas do Carnaval. A continuidade da festa depende não apenas de recursos para colocar as escolas na avenida, mas da capacidade de formar integrantes, público e pessoas dispostas a participar das atividades durante o restante do ano.
No início de 2026, a Prefeitura também publicou três editais relacionados ao Carnaval, que podem complementar o orçamento de participantes e agremiações. Um deles é voltado à escolha da Rainha e do Rei Momo, com premiação principal de R$ 3 mil. Para participar, é necessário ter mais de 18 anos e morar em Ponta Grossa há pelo menos seis meses.
Outro edital contempla o Concurso de Fantasias, dividido nas categorias Luxo, Originalidade, voltada à utilização de materiais reciclados, e Cosplay. Já as escolas de samba participam de um Edital de Trajetória Cultural, que prevê premiação de R$ 33 mil às vencedoras.
Um desfile que precisa ser planejado antes
A discussão sobre financiamento também envolve o momento em que o dinheiro chega às escolas. Organizar um desfile exige meses de planejamento, compra de materiais, produção de fantasias, ensaios e contratação de diferentes serviços.
Antonio compara a situação de Ponta Grossa com o Carnaval de Curitiba, cujo orçamento para 2026 é de R$ 560 mil. Mais do que o valor isolado, a questão apontada pela Liga é a necessidade de previsibilidade: recursos disponibilizados no início de um ano permitem que as escolas comecem a planejar o Carnaval seguinte com antecedência.
Sem essa garantia, as agremiações precisam buscar diferentes fontes enquanto simultaneamente organizam o desfile. A dependência de editais e projetos culturais obriga as escolas e a Liga a competir por recursos que não necessariamente foram criados exclusivamente para financiar o Carnaval.
O resultado é uma festa sustentada por diferentes mecanismos de financiamento e, em parte, pelo envolvimento pessoal de quem participa dela. É nesse contexto que o secretário municipal de Cultura, Alberto Portugal, definiu o evento local como um “carnaval de resistência”.
A dificuldade de chegar ao público
A retomada também depende de um elemento que não entra diretamente nas planilhas de orçamento: o público. Para que mais pessoas assistam aos desfiles e se aproximem das escolas, é necessário que saibam quando, onde e como o Carnaval acontece.
A percepção da Liga é de que a divulgação ainda é pequena diante da proximidade da festa. Diferentemente de outras programações municipais, como as atividades de Natal, que ocupam diferentes espaços de comunicação da cidade, o Carnaval chega às semanas anteriores aos desfiles com menor presença no cotidiano dos moradores.
A cobertura jornalística também faz parte dessa discussão. Boa parte das notícias publicadas sobre o Carnaval local está concentrada na divulgação da programação, com informações de datas e horários. Em alguns casos, porém, nem mesmo as escolas participantes recebem destaque nas publicações.
Entrevistas com representantes do poder público ampliam pontualmente esse debate, enquanto iniciativas de mídia independente também contribuem para a visibilidade da festa. A LiveTV, por exemplo, realiza transmissão dos desfiles e de outras atividades carnavalescas de Ponta Grossa.
O desafio de comunicação é especialmente relevante porque o fortalecimento das escolas depende da entrada de novas pessoas. Para além de informar quando haverá desfile, tornar conhecidos os personagens, as agremiações e o trabalho desenvolvido durante o ano pode contribuir para aproximar o restante da cidade de uma manifestação que já possui comunidades próprias, mas ainda busca ampliar seu alcance.
Escolas mantêm atividades antes da avenida
Antes dos desfiles, a Liga Carnavalesca também promove eventos que reúnem integrantes das agremiações e ajudam a movimentar o calendário da festa. Uma das atividades de 2026 foi o Samba da Liga, que definiu a Musa da Liga e a Rainha Trans.
O evento contou com representantes de quatro escolas de samba: Ases da Vila, Império do Samba, Acadêmicos Unidos da Furiosa e Baixada Princesina. Bruna Sartori foi escolhida como Musa da Liga, enquanto Emanuele Zavarize recebeu o título de Rainha Trans. Cada uma recebeu faixa, coroa e premiação de R$ 1 mil.
Essas atividades mostram que o Carnaval das escolas não se resume aos minutos em que cada agremiação ocupa a avenida. Há meses de preparação, eventos, ensaios, oficinas, produção de fantasias e mobilização de pessoas antes de o desfile acontecer.
O cenário atual, no entanto, ainda é de reconstrução. Menos integrantes do que em décadas anteriores, recursos considerados insuficientes, ausência de uma sede própria e dificuldades de divulgação se acumulam entre os obstáculos enfrentados pelas escolas de samba.
Ao mesmo tempo, mais de 400 pessoas permanecem envolvidas direta ou indiretamente na realização da festa. É essa comunidade que sustenta um Carnaval que tenta recuperar espaço na cidade. Para voltar ao patamar de outras décadas, porém, a resistência de quem já faz a festa precisará ser acompanhada de condições para que mais gente possa fazê-la também.
Ouça o episódio completo sobre os desafio da Escolas de Samba em manter o carnaval na cidade:

