Filmes para zero pessoas: esse é o público mais recorrente nas salas de cinema em PG

Durante quase uma década, o público mais recorrente nas sessões de cinema de Ponta Grossa não foi formado por casais, famílias ou grupos de amigos, mas por fantasmas. Isso porque entre julho de 2016 e outubro de 2025, as sessões sem nenhum espectador foram as mais frequentes nas salas comerciais da cidade. O levantamento desconsidera o período da pandemia de Covid-19, quando os cinemas estiveram fechados.

No período analisado, a média foi de 27 espectadores por sessão, número que não seria suficiente para ocupar uma fileira inteira de algumas das maiores salas da cidade. Quando o recorte considera apenas produções cinematográficas brasileiras, a média cai para 16 pessoas.

A baixa ocupação também aparece entre os outros públicos mais frequentes. Depois das sessões vazias, aquelas com apenas duas pessoas são as mais comuns. Na sequência aparecem sessões com três e quatro espectadores. Em 3.422 exibições realizadas ao longo do período, somente uma pessoa estava presente na sala.

Os números ajudam a dimensionar uma transformação na relação dos ponta-grossenses com o cinema, mas não oferecem, sozinhos, uma explicação para ela. Para Nelson da Silva Junior, professor de Artes Visuais da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e diretor de Assuntos Culturais da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Culturais (Proex), mudanças tecnológicas sucessivas alteraram a maneira como o público se relaciona com os filmes.

O professor explica que a história do cinema foi atravessada pela incorporação do som, pela popularização da televisão, pelo surgimento das fitas VHS e dos DVDs e, mais recentemente, pela expansão das plataformas de streaming. Hoje, produções cinematográficas recentes podem chegar às casas dos espectadores a poucos cliques de distância, modificando hábitos que durante décadas estiveram associados à ida às salas de exibição.

Acesse o primeiro episódio sobre salas de cinema em Ponta Grossa:

De Morbius a Vingadores

Entre milhares de sessões analisadas, alguns filmes ajudam a visualizar a dimensão das salas vazias. Morbius, estrelado por Jared Leto, lidera o ranking. Das 369 sessões realizadas durante pouco mais de um mês em cartaz em Ponta Grossa, 88 não tiveram nenhum espectador. A produção registrou média de 11 pessoas por sessão.

O segundo maior número de exibições vazias foi registrado por Robô Selvagem. Das 256 sessões do filme, 66 ocorreram sem público. Assim como Morbius, a produção teve média de 11 espectadores por sessão. Os dois filmes tiveram recepções críticas bastante distintas, indicando que a ausência de público não pode ser explicada simplesmente pela avaliação positiva ou negativa de uma obra.

Em terceiro lugar aparece Coringa: Delírio a Dois. Das 289 sessões realizadas, 62 ficaram completamente vazias. A média foi de 14 espectadores por exibição. A comparação com o primeiro Coringa evidencia uma diferença significativa: das 445 sessões do filme anterior, somente 11 não registraram espectadores, enquanto a média de público chegou a quase 45 pessoas.

Os recordistas de público

Se determinados títulos passaram diante de fileiras vazias, outros conseguiram concentrar centenas de espectadores. Das 20 sessões com maior público registradas no período analisado, 18 foram de Vingadores: Ultimato. As outras duas pertencem a Nada a Perder, produção sobre Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Nas sessões que aparecem no topo do levantamento, mais de 365 pessoas estiveram simultaneamente nas salas.

A comparação das médias, no entanto, produz outro resultado. Vingadores: Ultimato recebeu, em média, 87 espectadores em suas 689 sessões realizadas em Ponta Grossa. Nada a Perder alcançou média ainda maior: 142 pessoas ao longo de 233 sessões.

O desempenho chama atenção quando colocado ao lado de produções brasileiras de grande repercussão. Ainda Estou Aqui, por exemplo, filme vencedor do primeiro Oscar brasileiro de melhor filme internacional, teve média de 31 espectadores por sessão na cidade.

Os dados evidenciam também que o desempenho de um título não depende apenas da quantidade de sessões vazias. Um filme pode concentrar grande público em determinados horários e, simultaneamente, permanecer em cartaz em sessões com baixa ocupação. Por isso, números absolutos, médias de espectadores e quantidade de exibições precisam ser observados em conjunto.

A hora mais vazia do cinema

O horário da sessão também interfere na possibilidade de encontrar uma sala sem ninguém. Entre os horários analisados, as exibições das 14h foram as que mais vezes ocorreram sem público: foram 854 sessões vazias ao longo do período.

À noite, o fenômeno também aparece. As sessões das 21h ocupam a segunda posição entre os horários com maior quantidade de exibições sem espectadores. De maneira geral, a programação dos cinemas da cidade se concentra entre o início da tarde e aproximadamente 22h, além das sessões especiais realizadas em determinados lançamentos.

Produções cercadas por grande expectativa podem ainda ganhar pré-estreias durante a madrugada. Isso ocorreu, por exemplo, com Vingadores: Ultimato e Nada a Perder, mostrando como estratégias específicas de lançamento também interferem na distribuição do público ao longo do dia.

Neste segundo episódio exploramos o gosto do público ponta-grossense nas telas:

A história do cinema em PG

Embora os dados da Ancine revelem salas com baixa ocupação, a relação entre Ponta Grossa e o cinema é mais que centenária. Em sua dissertação de mestrado, O fechamento dos cinemas em Ponta Grossa: particularidades de um processo histórico-cultural, Nelson da Silva Junior recupera parte da trajetória das salas de exibição na cidade.

O primeiro cinema ponta-grossense foi o Cine Recreio, inaugurado em 20 de setembro de 1906. Inicialmente instalado em um imóvel na Rua Sete de Setembro, posteriormente passou a funcionar na Rua XV de Novembro. Cinco anos mais tarde, em 1911, foi inaugurado o Cine Renascença.

Na década de 1920 surgiu o Cine Éden, que funcionou na Praça Barão do Rio Branco até o final dos anos 1940. Posteriormente, o local deu espaço ao Cine Teatro Ópera. Esses estabelecimentos tiveram papel importante no acesso dos moradores às produções cinematográficas, sobretudo aos filmes hollywoodianos que circulavam no país nas primeiras décadas do século XX.

Outro espaço marcante foi o Cine Império, inaugurado em 30 de setembro de 1929. Ao longo das décadas seguintes, diferentes cinemas ocuparam a região central e fizeram das salas de exibição uma presença constante na vida cultural ponta-grossense.

No início do século XXI, o modelo mudou. Com a expansão dos shopping centers, as salas de rua deram lugar principalmente aos complexos de cinema instalados nesses empreendimentos. O Shopping Popular Total passou a contar com cinco salas administradas pela Cinesystem, enquanto o Shopping Palladium oferecia outras cinco.

O fechamento do Shopping Total também significou o encerramento das atividades do cinema instalado no empreendimento. Com isso, Ponta Grossa passou a contar, naquele momento, com apenas quatro salas comerciais em funcionamento, todas no Shopping Palladium.

A redução da concorrência, contudo, não produziu um crescimento imediato na ocupação das salas restantes. Nos registros posteriores ao fechamento do outro complexo, o cinema do Palladium apresentou média de aproximadamente duas pessoas por sessão, apesar de suas salas terem capacidade para receber entre 277 e 378 espectadores.

Cinema fora do circuito comercial

Os dados utilizados no levantamento são provenientes da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e, por isso, contemplam as salas comerciais registradas pelo órgão. A análise não representa toda a circulação cinematográfica existente em Ponta Grossa.

Um exemplo está no CinePG, espaço público inaugurado em julho de 2025. A sala cria uma alternativa para produções que não necessariamente encontram espaço no circuito comercial e abre a possibilidade de ações voltadas à formação de novos públicos.

Para Nelson da Silva Junior, projetos direcionados a públicos específicos e iniciativas de extensão ajudam a compreender uma característica importante da relação da cidade com o audiovisual: a baixa adesão a determinadas sessões comerciais não significa necessariamente ausência de interesse por cinema.

Ponta Grossa acumulou, historicamente, projetos, mostras e iniciativas dedicadas à exibição e discussão cinematográfica. Festivais e espaços alternativos podem atingir espectadores interessados em produções que circulam à margem do mercado dominado pelos grandes lançamentos.

Entre essas iniciativas está o Cine dos Campos, Festival de Cinema de Ponta Grossa, realizado no CinePG, com mostras competitivas de curtas-metragens, oficinas, palestras e debates. Experiências desse tipo mostram que parte do público pode estar menos distante do cinema propriamente dito do que das características da programação e do modelo das salas comerciais.

Para saber mais sobre a história do cinema em PG, ouça a entrevista completa com o professor de Arte Visuais da UEPG Nelson Silva Junior:

Novas salas e uma pergunta ainda aberta

O cenário de exibição comercial da cidade também pode voltar a mudar. Com a inauguração do Plaza Campos Gerais, foi anunciada a instalação de um complexo da Cine Laser no empreendimento. A abertura de novas salas acrescenta uma variável aos próximos levantamentos sobre o comportamento do público.

A retomada da concorrência permitirá observar se uma nova localização, uma programação diferente ou mudanças na estrutura oferecida ao espectador serão capazes de alterar os índices de ocupação registrados até agora. Os primeiros dados do novo complexo também poderão ser comparados à série histórica das demais salas da cidade.

Como trabalhamos esses dados?

A dimensão dessa série exigiu um trabalho de processamento de dados. Os registros públicos da Ancine utilizados na análise estavam distribuídos em aproximadamente 600 planilhas, algumas delas com cerca de 130 mil linhas. Para reunir, tratar e filtrar as informações referentes a Ponta Grossa, foi utilizada a linguagem de programação Python. No final do texto você encontrará uma visualização que permite consultar todas as sessões de cinema em PG nos últimos 10 anos.

O cruzamento permitiu observar não apenas quantas pessoas frequentaram as salas, mas quais filmes tiveram maior e menor público, quantas sessões ocorreram sem espectadores e em quais horários o esvaziamento foi mais frequente.

Os resultados revelam um aparente paradoxo. Ponta Grossa mantém uma relação com o cinema há mais de 100 anos, possui histórico de salas, festivais e projetos dedicados à linguagem cinematográfica e ainda registra grandes públicos diante de determinados lançamentos. Ao mesmo tempo, durante quase uma década, a situação mais frequente nas sessões comerciais da cidade foi uma tela acesa diante de nenhuma pessoa.

Mais do que mostrar que os ponta-grossenses deixaram de gostar de cinema, os dados indicam uma transformação na maneira de consumir filmes. Entender essa mudança exige olhar para além da bilheteria: para os horários, os títulos oferecidos, a concentração das salas em shopping centers, a expansão do streaming e as iniciativas culturais que continuam reunindo espectadores fora do circuito comercial.

Acesse o dashboard abaixo e confira as sessões de cinema em Ponta Grossa de 2016 a 2025: